segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Pink Floyd e o quesito das composições. Uma opinião.

Existe algo no Pink Floyd que quase ninguém percebe no quesito das composições. Geralmente as pessoas atribuem ao Roger Waters a imensa maioria das composições, o que não é verdadeiro. Em música propriamente dito, isto é, a parte instrumental, separada das letras (não estou desmerecendo o valor delas), percebe-se que o papel de compositor do Waters é bem menor do que é propagado. Levando-se em consideração o período de 1968 a 1975 (fase clássica do Pink Floyd) e tomarmos como exemplo o álbum Obscured by Clouds e separarmos letra de música, o principal compositor da parte musical propriamente dita deste disco foi o David Gilmour e o segundo o Rick Wright.
Roger Waters compôs uma musica e letra em Free Four, a letra de 2 músicas de Gilmour e 2 do Wright, além da parceria em 3 temas instrumentais totalizando 8 composições contra 5 do Wright, 7 do Gilmour e duas coautorias do Nick Mason. Ao separarmos letra de música, Waters foi autor de apenas quatro músicas. Quanto ao Gilmour das 7 composições, em 7 ele foi autor e coautor e em apenas em uma ele fez a letra. Rick Wright não escreveu nenhuma letra, mas contribuiu muito nos arranjos. Se for feito o mesmo processo em outros discos dessa época como Meadle, DSODM ou Whish you Were Here por exemplo, vamos notar que a contribuição musical dos outros (exceto o Nick Mason que realmente compunha menos, mas era coautor de várias composições instrumentais) era praticamente igual com exceção do More (e também ali não foi levado muito em consideração o trabalho dos arranjos do Wright).
A partir de 1973, com The Dark Side of the Moon, Roger Waters passou a ser o único letrista enquanto ele esteve do grupo. De fato Roger Waters exigiu que o crédito de letrista aparecesse em destaque nos dicos, algo diferente em trabalhos anteriores. O interessante é que no caso das músicas propriamente ditas não havia uma discrinação dando a falsa idéia que Waters era também coautor de várias delas, e como exemplo podemos observar a composição Us and Them, música de Rick Wright com letra de Roger Waters. No disco essa música aparece creditada a Waters/Wright sem a separação letra/música, passando a falsa impressão de o Waters era também autor da parte instrumental em parceria com Wright.
Foram as letras que deram ao Roger Waters uma certa "liderança criativa" mas não em sua totalidade. Também é negligenciado na maioria das analises o papel dos arranjos musicais. Este quesito tinha como principal músico o Rick Wright (de longe o músico mais letrado do grupo dessa época e também o mais subestimado). Rick Wright era o principal arranjador do grupo até o Animals de 1977, quando Waters passou a se autodenominar compositor mor do Pink Floyd.
Em Animals, Rick Wright, apesar de não ser creditado oficialmente como compositor em nenhuma das faixas (há indícios na história do Pink Floyd, que Wright alem de arranjar várias músicas, acrescentava partes novas, não levando crédito de compositor, como exemplo basta ver a parte final de Cirrus Minor de More que é uma contribuição fantástica) teve uma participação muito ativa nos arranjos do álbum, coisa que praticamente inexiste em The Wall de 1979, fase em que ele de fato não teve quase nenhuma contribuição.
Sobre este assunto existe uma curiosidade: em 1979, o Pink Floyd lançou The Wall, um álbum duplo que tem Roger Waters como seu principal compositor. De fato, ele foi o autor de mais de 90% das músicas e de todas as letras. Já abordei minha opinião sobre o The Wall no blog do Dimensão Experimental anos atrás. ver https://dimensaoexperimental.blogspot.com/.../pink-floyd... Todavia, uma coisa me intrigou. Na versão ao vivo de The Wall, lançada apenas em 2000, no final da canção Goodye Blue Sky, aparece um tema que definitivamente não fazia parte do disco. O tema chama-se "A FEW MORE BRICKS https://www.youtube.com/watch?v=f8s1LE6a1Z4....
Posteriormente, fiquei sabendo que se tratava de um interlúdio instrumental de autoria do Rick Wright não creditado a ele na época. Encontrei uma versão de um ensaio com esse tema junto com Goobye Blue Sky, gravado em fevereiro de 1980, pouco antes do início das apresentações do Pink Floyd The Wall ao vivo. Essa peça reforça a minha opinião sobre The Wall. Ouçam, vale a pena apesar da baixa qualidade da gravação.
Por outro lado, Rick Wright era o único membro do período 1967 - 1977 com habilidade de orquestrador (o que não é pouca coisa em termos de música). Então de onde vem a chamada "liderança criativa!" do Roger Waters? Essa liderança tem muito mais a ver com a organização e a perseverança do que com a música. A perseverança é uma qualidade essencial em qualquer liderança. Ser líder não significa ser o chefão.
As pessoas não gostam muito de falar desse assunto, mas o fato é, que o Roger Waters é um músico limitado tecnicamente e também em termos de progressões harmônicas. Podemos comprovar isto ao analisarmos o campo harmonico de suas composições e as compararmos com as do Rick Wright que são mais sofisticadas. Porem, isso não pode ser tomado como algo ofensivo, pois Waters compensou essas "deficiências " brilhantemente com qualidades de organizador e excelente cancioneiro letrista. Suas composições ainda que não tão sofisticadas em termos harmonicos são lindas e comoventes e deram o tom temático em boa parte dos álbuns do grupo em especial The Wall. Penso que o problema foi ele se convencer que por causa das letras ele era o Pink Floyd.
Por Klaus (Claus) Farina - músico, historiador e membro do grupo Dimensão Experimental