terça-feira, 29 de setembro de 2026

O Silêncio e o Ruído presente na música

O Silêncio e o Ruído presente na música Por Claus Farina, músico e historiador A partir da unificação alemã, os imperialismos europeus entraram em franca rota de colisão com uma corrida armamentista que teria como consequência a primeira guerra mundial. O surgimento da psicanálise, a teoria darwinista, marxista, a segunda revolução industrial, com o aparecimento do automóvel, entre outros aspectos socioculturais e econômicos tiveram um grande impacto na cultura como um todo, influenciando uma mudança de paradigmas na música como consequência do cromatismo e do uso, cada vez mais intenso, da dissonância, levando ao inevitável esgotamento do sistema tonal e a busca por novos caminhos.
Ainda que Pierrot Lunaire e Sagração da Primavera sejam anteriores à Primeira Guerra Mundial, o clima de tensão em 1912 e 1913 já estava no ar, pois as guerras nos Balcãs teriam influência direta na política de alianças estabelecidas no conflito de imperialismos. Nesse sentido, acredito que o silêncio e o ruído destas obras devem ser analisadas como uma resposta artística à eclosão da primeira guerra mundial, ainda que anteriores a esta. Já Ionisation, composta entre 1929 e 1931, por ser posterior ao conflito mundial, é a que talvez apresente de forma mais radical o silêncio e o ruído como uma resposta artística não só à Grande Guerra, mas também para a crise econômica que se abatia no mundo naquele período. Por isso analisarei as três obras cronologicamente. Pierrot Lunaire (1912) de Schoenberg https://www.youtube.com/watch?v=vQVkbKULKpI Baseada em 21 poemas do poeta simbolista belga Albert Giraud, a obra foi composta em 3 partes, cada qual contendo 7 canções, para voz feminina, flauta ou piccolo, clarinete ou clarone, violino ou viola, violoncelo e piano. Pierrot Lunaire é atonal, apresenta cromatismos, talvez por isso ela soe tensa criando alguns momentos de suspense psíquico acentuado pelo canto falado. É possível imaginar isso já que os versos contam uma história de um palhaço triste, apaixonado, apresentado como lunático, distante e inconsciente da realidade. A peça é intercalada por silêncios e ruídos que, na minha opinião, reforçam essa tensão psíquica. Contribuiu muito o fato de a soprano ter de oralizar os versos seguindo o ritmo e a melodia indicados na partitura, subindo ou descendo a voz, em distância proporcional à posição das notas, com um fundo instrumental dissonante. A Sagração da Primavera 1913 de Stravinski https://www.youtube.com/watch?v=_zxYGQVc2Bg A obra abre com um solo de fagote tocando num registro muito agudo no limite das possibilidades do instrumento. Essa melodia inicial vai sendo adornada com ornamentos, fazendo a música soar diferente, muito mais leve. Esse primeiro momento pode ser caracterizado como “silêncio” e o anúncio de algo que está por vir. Pouco a pouco, este estilo de execução, depois também adotado pelos sopros de madeira, vai se juntando, sobrepondo-se numa espécie de caos organizado que podemos caracterizar como ruído “barulho” até a música voltar novamente ao “silêncio” com o solo do fagote aproximadamente aos 2:58, mas desta vez com a presença discreta de outros instrumentos, como um clarinete aos 3:08. A essa altura, uma harmonia dissonante é tocada pelos primeiros violinos quando irrompe aos 3:26 uma nova sequência rítmica, irregular numa dinâmica alucinante, imprevisível, que poderíamos caracterizar como ruído ou barulho. A complexidade rítmica aqui aumenta extraordinariamente, alternando a marcação do tempo quase em cada compasso, tornando praticamente impossível adivinhar o seguimento da música. “Passamos de um compasso de três tempos para um compasso de dois, depois, de cinco tempos, e sucessivamente de três, de quatro, de cinco, de seis, e de cinco tempos”. (Barraud, 1968 p. 58) Ao longo da peça, vai sendo acrescentado camadas após camadas de som, transformando a orquestra numa espécie de máquina, à medida em que os ritmos mecânicos se encaixam uns nos outros a uma velocidade estonteante. Ionisation (1931) de Varèse https://www.youtube.com/watch?v=ove6RVGT478 Das três obras analisadas sob a perspectiva do silêncio e do ruído como uma resposta artística à primeira guerra mundial, Ionisation é a única de fato composta após a eclosão do conflito. Criada entre 1929 e 1931, a peça pode ter sido influenciada pela crise de 1929. Ionisation, composta para ser executada por 13 músicos, inclui, além de diversos instrumentos de percussão (bateria, prato, gongo, castanholas, glockenspiel, bongôs...), duas sirenes e piano. Nesse contexto, podemos imaginar Ionisation como uma trilha sonora de um filme em que os soldados entrincheirados passam por um constate estado de tensão. A peça começa com os instrumentos de percussão (bumbo e pratos) tocando baixo, o que podemos caracterizar como um tipo de suspense quase silencioso, que na medida em que a peça avança, com a entrada dos outros instrumentos num crescendo, ganha vigor em torno dos 0:35 segundos, irrompendo numa sequência rítmica como se um combate estivesse iniciando, acentuado pela presença de uma sirene na altura dos 0:53. O caos vai se estabelecendo num crescendo, a dinâmica aumenta a tensão até que aos 2:09 ouve-se um estrondo nas caixas e demais instrumentos, soando como se um combate estivesse acontecendo. Este momento podemos caracterizar como ruído ou barulho. Aos 2:50, a peça diminui sua dinâmica estabelecendo um novo “silêncio”, ou uma espécie de trégua no combate, apesar dos pratos, triângulo, sirene manterem o clima de tensão para logo em seguida, aos 3:04, a caixa reiniciar junto com os demais instrumentos de percussão um novo “combate”, com a sirene aumentando o volume. Neste momento da peça, o caos é total e assim permanece como se o combate parecesse não ter desfecho até que, aos 4:16, gongos e carrilhão parecem anunciar o início do fim do caos, pois a dinâmica vai pouco a pouco diminuindo, ainda que bombo, pratos, sirene, carrilhão e gongos continuem sendo executados mantendo um clima de tensão, agora com acordes dissonantes do piano até o fim da peça, quando o silêncio se estabelece. Kyrie (2006) Arrigo Barnabé https://www.youtube.com/watch?v=Smk4SeCVocg Das peças da atualidade, minha escolha recaiu na primeira faixa da Missa in Memoriam Itamar Assumpção, chamada Kyrie. Trata-se de uma obra em homenagem a Itamar Assumpção, cantor, compositor, escritor, instrumentista, ator, produtor, artista que foi um dos principais nomes da música independente e da chamada “Vanguarda Paulista”. Essa obra é executada por uma orquestra com formação instrumental que contempla madeiras, metais, cordas e, principalmente, percussão e um coro de 12 vozes. Através de 5 faixas e escrita em latim, a Missa reproduz o texto da missa católica em seis partes (Kyrie, Glória, Credo, Sanctus, Benedictus e Agnus Dei), às quais Arrigo acrescentou citações de Itamar Assumpção. Observei que esta peça apresenta um interessante equilíbrio entre o ruído e o silêncio. Em quase nenhum momento chegamos ao silêncio ou ao ruído absoluto, a não ser numa curtíssima pausa aos 4:12. A peça começa com uma percussão cadenciada com forte marcação dos tímpanos, secundado por instrumentos de percussão. A partir dos 0:35 entram as cordas, madeiras, tornando a peça frenética, criando uma crescente tensão junto com as vozes e o resto da orquestra, chegando ao que poderíamos chamar de ruído um quase caos. Aos 2:13 um xilofone atenua a textura, porém é somente aos 2:39 que de fato vai haver uma diminuição na dinâmica da música. Na altura dos 3:00 minutos, a peça acalma e praticamente só se ouvem as vozes femininas e uma voz grave masculina do coro, chegando a um quase silêncio. Enfim, ouve-se apenas uma voz grave masculina até o absoluto silêncio, na já citada e curtíssima pausa dos 4:12, para, aos poucos, as vozes femininas em contraponto à voz masculina grave, auxiliados pelo fagote, darem início a parte final da peça. Essa parte final é quase calma, apesar das dissonâncias e da harmonia atonal, que transitam por toda a obra. Porém uma pequena sequência em que a textura e ritmo aumentam, não como no começo, geram certa tensão em torno dos 5:29, com maior intervenção das cordas e das vozes aos 6:02. Por fim, um oboé parece anunciar um retorno do silêncio junto com o coro, já final da peça. Referências: BARRAUD, Henry. Para compreender as músicas de hoje. São Paulo: Perspectiva, 2012. Caderno de estudos e pesquisa da disciplina Música nos séculos XX e XX1, do curso de pós-gradução em História da Música Ocidental, Unileya, 2021. WISNIK, José Miguel. O Som e o Sentido. Uma outra história das músicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

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